domingo, 23 de agosto de 2009

A Batalha dos Aflitos


























Então acordo naquela manhã do dia 26 de novembro, o Rio Grande do Sul inteiro respira o jogo, todo domingo aqui no RS você já acorda sentindo o cheiro de churrasco(isso pra mim que sempre acordo meio-dia, haha). Aquele dia não, aquele dia o cheiro era de decisão total, mais de cem anos de história colocados a prova, aos que não sabem, semanas antes o Grêmio por pouco não decretou falência.

Os colorados, por terem perdido o título da Série A em roubalheira escancarada, estavam todos revoltados querendo que o Grêmio falisse.

Fui pra casa do meu primo ver o jogo, ver com a mesma galera que me acompanhou naquele ano inteiro no estádio.

O Grêmio só não subiria pra série A se perdesse o jogo, podia até empatar, mas não foi tão fácil assim quanto parecia que seria. Quando o jogo começa parece filme de terror, nada dá certo, já no primeiro tempo tem um pênalti pro Nautico, por sorte o Bruno Carvalho lá chutou na trave. Termina o primeiro tempo, começa o segundo, o Grêmio mais perdido ainda, Ânderson no banco, coisas de Mano Menezes. Na metade do segundo tempo o Grêmio fica com um a menos, daí só dá Náutico, pressão total até que o juiz anota mais um pênalti.

Aí já sabe né, peitaço do Patrício, expulsam um, dois, três, confusão de 20 minutos.

Nessa hora eu peguei minha bicicleta pra voltari pra casa, não existia mais esperança alguma da minha parte, olhei pra cara do Tio, vi lagrimas nos olhos dele, meu primo xingando todo mundo, indignação total.

Vim correndo, ainda não tinha acabado a confusão, tirei a camisa, fiquei só com uma bermuda véia, bem a vontade. Deitei na cama do quarto da véia, fiquei olhando ainda os caras cavando buraco na marca do pênalti.

Então tá, confusão terminada, Grêmio só com 4 a menos, Adhemar preparado pra cobrança. Enquanto ele corria pra bater o pênalti era como se toda aquela minha história lá desde 1992 estivesse passando, como um filme, se aquela bola entrasse, era quase certo que meu time não aguentaria mais um ano na série B, eu seria um sem-time, faria como os nordestinos que torcem pro Flamengo ou pro Corinthians, que inferno.

Mas então, como naquelas situações de milagre total, Adhemar chuta entre o meio e o canto direito, a bola bate no joelho do goleiro Galatto e sai pra fora. Galaaaaaaaaaaaaaaaaaattooooo, Gaaaaaaaaaaaaaaaalaaaaaaaaaaaaaattoooooooooooooooooooooooooo, abri a janela, era neguinho correndo pra tudo que é lado, atirando pra cima o que tinha em mãos, camisetas, cigarros, copos, lembro de ouvir das ruas o barulho idêntico ao de um estádio lotado, eu já tinha visto o Grêmio ganhar de tudo, depois disso vi o Inter ganhar de tudo também, mas um barulho daqueles vindo das ruas eu não ouvi nunca mais.

"Mas calma aê, ainda temos mais uns 5 minutos de jogo, ainda temos um escanteio contra." Era o que eu pensava, o Galatto podia ter defendido o pênalti, mas ainda eram 7 contra 11.

O escanteio é cobrado e Pereira afasta a bola, ela passa por mais um ou dois jogadores e chega em Ânderson, a revelação do ano que só entrou no final do jogo, Ânderson vem com a pelota pra um dos lados do campo e dribla o tão respeitado Batata, campeão "Mundial" pelo Corinthians anos antes. Batata entra em Ânderson e é expulso.

Nessa hora, sentindo que a situação tava começando a se ajeitar, comecei a tremer, suor jorrava, devo ter perdido meio quilo durante o final desse jogo. Lá em Recife, Batata sai do campo, Ânderson sai jogando rapidamente, entra na área, dribla um, dois, e chuta na saída do goleiro.

Ouvi pela segunda e última vez na minha vida, aquele barulho de estádio cheio vindo das ruas. Gente correndo, carros buzinando, foguetório no céu. Mas eu não conseguia rir, pelo contrário, eu estava em estado de choque.

Me lembro de me ajoelhar em frente a tv após a expulsão do Batata, quando saiu o gol eu deitei, e como aqueles árabes, ajoelhado com a testa no chão, chorei, chorei como uma criança faminta e pelada no inverno gaucho choraria, minhas lágrimas de felicidade naquela hora, não tenho dúvidas, matariam a sede de muito etíope.

Tocou o telefone, era o tio chorando, o primo chorando, todo mundo chorando. Meu tio já tinha visto o Grêmio ser campeão do mundo, e falava que momento como aquele ali ele nunca imaginou passar. Eu, que vivi a época do Grêmio multi-campeão do Felipão, realmente, não me lembro de ter vibrado tanto por um título nem de Libertadores, quanto como naquela Batalha dos Aflitos. Os colorados mais fanáticos certamente desdenham tal-feito, que título de segunda divisão não vale nada, mas nas circunstâncias que aconteceram essas coisas, tenho certeza que todos, em seus fundos, respeitam muito este fato.

Pra essa situação você pode pensar em 10, 100, 1000 palavras, mas essa, inacreditável, realmente é a que mais faz sentido.

Inacreditável!

Nenhum comentário:

Postar um comentário